Kit de sonhos

Bate-papo entre irmãos caminhando no parque…

Ian, 5 anos:
– Theo, essa noite entrou um sonho novo no meu kit de sonhos!
Theo, 8 anos:
– É, que legal. Mas foi sonho ou imaginação?

– Foi sonho.

– Ah, legal.
– Tem uns sonhos que são pesadelos que ficam ocupando espaço.
– E por que você não tira?
– Porque eu não tenho a senha pra desinstalar!

Diversas do Theo 4

Theo, com 3 anos e 9 meses, segue com suas contribuições…

Apresentando uma espécie de teatro:
– Preparem-se! Vai começar!
– Esperem-se! (arruma um brinquedo)
– Pronto! Olhem-se!

Voltando do cinema e contando sobre o filme:
– Foi bem legal, mas eu fiquei com um pouco de medo. Quando o jacaré apareceu, minha bunda pulou!

Narrando o movimento do elevador, quando foi buscar a pizza com o pai:
– Agora o elevador tá abaixando (na ida)
– E agora o elevador tá encimando (na volta).

Admirando o pôr do Sol:
– Olha, agora já tá anoiecendo!

Com uma virose forte e seu jeito dramático e metódico de ser:
Sua mãe fala:
– Filho, já vai melhorar, o Vô Luisinho vem te examinar aqui em casa e…
E ele responde muito preocupado e com voz de sofrimento: 
– Mas ele vem com roupa de médico?

Brincando de médico:
– Eu sou o médico, você é a enfermeira (para a mãe). Vou examinar esse bebê (pega um boneco).
– Ok, Dr. – responde a mãe.
– Enfermeira, pega o estetoscópico, por favor.
– Tá aqui, Dr.
– Obrigado. (examina o bebê). Ih, o bebê tá chorando. Enfermeira, canta uma música bem relaxosa pra acalmar o bebê, tá bom?

Montando um quebra-cabeça/livro:
– Essa peça é a maior de todas, é gigrande!

Criando palavras:
– Theo, pega a fita crepe lá no quartinho, por favor – pede a mãe.
– Onde? No quartinho da lavandeíra?

Em processo de recuperação da virose:
– Filho, como você está se sentindo?
– Ah, eu tô bem melhor, não tô mais molinho, não, já tô todo duro de novo.
 

Do contra total

Diálogo na casa da Bebel, quando ela tinha 1 ano e 8 meses:
Mãe: – Bebel, quer passear?
Bebel: – Passear, não.

Pai: – Quer ficar em casa?

Bebel:  – Em casa, não.
Mãe: – Quer dormir?
Bebel: – Dormir, não.
Pai: Quer brincar?
Bebel: Brincar, não.

Mãe: – Mas você só fala não? Fala “sim” também!

Bebel: Sim, não!

Histórias de Clarice…

Transcrevo aqui dois registros encantadores retirados do caderno de Clarice Lispector…
“1954 – no aeroporto quando íamos de férias para o Rio, ele vê uma menina e me diz furtivo, afobado:
– Olha, uma menina bonita!
Ficou agitadíssimo e disse:
– Mamãe, quando eu vejo uma moça eu até sinto o cheiro do meu paninho! (o pedaço de pano com que desde que nasceu, ele dorme. Quando o pano era lavado ele reclamava a ausência de cheiro. Uma vez disse: mamãe, o paninho tem cheiro de mamãe!)”
“Pedro.
– A palavra “palavra” é ex-possível!
– Ex-possível?
– É! Gosto mais de dizes ex-possível do que impossível! A palavra “palavra” é ex-possível porque significa palavra.”
LISPECTOR, Clarice. Outros Escritos (Organização de Teresa Montero e Lícia Manzo). Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

 

Brinquedos e brinquedas

A mãe de Artur, de 5 anos, conversou bastante com ele sobre questões de gênero, esclarecendo que brinquedo é brinquedo e não precisamos dividir “brinquedo de menina” e “brinquedo de menino”. 
Artur concordou com todas as colocações, mas no final da conversa, lançou:

– Tá bom, mamãe, entendi. Mas eu não quero nem passar batom e nem pintar a unha, tá?