Miguel, a morte e o sentido da vida

Quando a bisavó do Miguel morreu, ele tinha 3 anos e meio e quis entender melhor tudo o que estava acontecendo conversando com seus pais:

– Por que vocês enterraram a minha bisavó na areia?

– Porque ela morreu, filho.

– E por que ela morreu?

– Porque estava velhinha

– E por que ela tava velhinha?

– Porque nasceu faz tempo.

– E por que ela nasceu?

Diante dos intermináveis porquês, a mãe do Miguel resolveu devolver a pergunta:

– Por que você nasceu, Miguel?

E, animado, ele responde:

Pá bincá, pá durmi, pá acordá quando tiver de dia!

…………………..

E, já com 4 anos, ele retomou com os pais a conversa sobre a morte e o morrer…

– Todo mundo no mundo inteiro vai morrer, mãe?
– Sim, filho, quando fica velhinho, todo mundo morre.

– Todo mundo mesmo?

– Todo mundo.

– Ahhhh, mas eu sei de uma pessoa que nunca vai morrer.

Nesta hora, a mãe do Miguel pensou que ele iria dizer ele mesmo, ou ela, mas ele logo completou:

–  O Papai Noel!

A cara da mãe

Bebel, com dois anos e pouco, estava no colo de sua mãe, quando uma amiga da família disse:

– Nossa, Bebel, você está a cara da sua mãe!

Mas ela rapidamente corrigiu (apontando para o rosto da mãe):

– Não, não, a cara da minha mãe tá aqui!

O cocô nosso de cada dia…

E, além de fazer descobertas super importantes no banho, o Hugo também usa bastante o banheiro para fazer as necessidades básicas, claro. Com 5 anos, ele gostava de ficar um tempão sentado no vaso e lendo gibis. Um dia, sua mãe estava com pressa e perguntou:

– Já acabou, Hugo?

E ele, bastante calmo, explicou:
– Não, mamãe. Cocô nunca acaba. Amanhã tem mais.

Histórias de Clarice…

Transcrevo aqui dois registros encantadores retirados do caderno de Clarice Lispector…
“1954 – no aeroporto quando íamos de férias para o Rio, ele vê uma menina e me diz furtivo, afobado:
– Olha, uma menina bonita!
Ficou agitadíssimo e disse:
– Mamãe, quando eu vejo uma moça eu até sinto o cheiro do meu paninho! (o pedaço de pano com que desde que nasceu, ele dorme. Quando o pano era lavado ele reclamava a ausência de cheiro. Uma vez disse: mamãe, o paninho tem cheiro de mamãe!)”
“Pedro.
– A palavra “palavra” é ex-possível!
– Ex-possível?
– É! Gosto mais de dizes ex-possível do que impossível! A palavra “palavra” é ex-possível porque significa palavra.”
LISPECTOR, Clarice. Outros Escritos (Organização de Teresa Montero e Lícia Manzo). Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

 

Bicho papão

A terapeuta de Sofia costuma aproveitar os assuntos de interesse das crianças para conduzir alguns trabalhos. Ao perceber que Sofia gostava muito do tema “Harry Potter”, ela resolveu assistir uma cena do filme (onde um “bicho-papão” se transforma no que as crianças mais têm medo) para, se possível, engatilhar uma conversa posterior. Terminada a cena ela comenta:

– Que coisa, né? Esse bicho-papão, então, é um bicho que vive dentro do armário e, quando sai, se transforma exatamente no que a gente mais tem medo… Para o Rony (personagem do filme), ele se transformou em uma aranha gigante… e para você no que ele se transformaria?

– Não sei.

– Não sabe? Ah, mas é só lembrar de alguma coisa que você tem medo de vez em quando. Você não tem medo de nada?

– Não sei.

– Não sabe ou não tem medo?

– …

– Pensa bem Sofia, pode ser alguma coisa que você não goste… No que poderia se transformar o bicho papão quando ele saísse do seu armário???

– Bom… ele podia se transformar numa pessoa que fica fazendo perguntas!