Roxo

A Lúcia é prima do Hugo e, quando tinha uns dois anos, apaixonou-se por uma cor: a roxa.
Certa vez, ela chegou em casa enquanto a avó tricotava algumas roupas e pediu:

– Vó, compra um Palio Weekend roxo?

– Ih, Lúcia. Eu não tem dinheiro pra comprar um carro agora. – responde a avó ainda entretida no tricô. 

E, respirando fundo para se conformar, Lúcia então finaliza:

– Tá. Então cutchura uma blusa roxa pra mim.

O que é importante

Na escola de Felipe, em todo início de ano, são feitas algumas listas com as crianças, registrando “o que vamos aprender”, ou simplesmente as “regras gerais” combinadas previamente com os alunos, desde os três anos de idade.
Foi em um momento de retomada de uma dessas listas que a professora de Felipe falou:

– Então pessoal, vamos lembrar os nossos combinados?

1) Levantar a mão para falar”.

2) Ouvir o que o amigo diz, em silêncio” – Isso é muito importante, não é pessoal?

– SIM! – respondem todos animados.

– Bom, vamos continuar:

3) Lavar as mãos antes de tomar o lanche”. Isso também é importante?

– SIM – novamente em uníssono…

– 4). Ah, essa também é muito importante. “Não bater no amigo”.

Neste momento, Felipe levanta a mão, demonstrando muita ansiedade para falar.

– O que foi Felipe, você quer falar alguma coisa?

– Professora, sabe o que é muito importante nessa vida?

– O quê?

– O que é mais importante, é não levar chineladas!

Diversas do Lúcio

Lúcio tem dois anos, mas nos surpreende com sua capacidade linguística e com a sensibilidade e delicadeza que permeiam seus comentários…


… na rua, indo para a aula de canto com bebês:
– Oi pombinha, tudo bem? A gente vai pro coral, sabia? Sabia??… Eu sabio!!!


… no Jardim Zoológico, feliz em ver um macaco diferente:
– Olha, um Morangotango!!!


… em casa, com um brinquedo aparentemente quebrado:
– Mamãe, esse não sanfonia?

Trocar a fralda

Melina tinha dois anos e resolveu brincar no quarto dos pais enquanto eles trocavam de roupas.

De repente, quando seu pai estava de cuecas procurando uma calça para vestir, ela começa a brincar de “túnel”, passando por debaixo de suas pernas.

– Cuidado aí, hein, filha! Não vai machucar o papai…

– Agaá! – responde Melina, empolgadíssima, engatinhando de um lado para outro.

Logo em seguida, ela resolve levantar-se bem no meio do “túnel”, erguendo-se pelas pernas do papai.

– Filha, não!

Mas já era tarde, ela já está com as mãozinhas bem direcionadas àquela região tão protegida pelos homens nos jogos de futebol.

Seu pai, “petrificado” procura em vão a ajuda da esposa, que a essa altura já enfiou o rosto no travesseiro para abafar o riso.

– Ãh… filha… é…

Melina, com uma carinha de quem acabara de descobrir algo muito importante, simplesmente pergunta:

– Tá com “totô”, papai???

Fim do mundo

Miguel, 8 anos, conversando com o pai:

– Pai, o mundo vai acabar um dia?
– Sei lá, mas acabar como, filho?
– Morrer, se destruir em vários pedaços…
– Mas aí nós iríamos morrer?
– Não pai, iríamos ficar flutuando no espaço até encontrar outro planeta para viver…
– Entendi. E qual planeta você queria viver?
– Não sei, mas Marte não dá pois é muito perto do Sol…. Hum, acho que iria querer viver em Saturno para poder patinar nos anéis!

Memória

Theo, 4 anos e 4 meses, conversando com sua mãe:

– Theo, você lembra que a vovó pediu pra você ir lá ajudar a arrumar a casa?

– Lembro, eu nunca esqueço, sabe por quê?


– Por quê?


– Porque ficam passando uns sonhinhos na minha cabeça. Eu sonho até o que a gente vai fazer amanhã.

O pensador

Theo, ainda com quatro anos e nove meses, voltando para casa com sua mãe:

– Ô, mãe!

– Oi!

– Tem um pensamento na minha cabeça, que eu não quero mais que fique na minha cabeça!

– Que pensamento?

– Eu não quero te falar qual é o pensamento, eu só quero tirar o pensamento da minha cabeça!

– Ok, então pensa em outra coisa.

(silêncio)

– Ô, mãe!

– O que foi?

– Você falou pra eu pensar em outra coisa e agora tem dois pensamentos na minha cabeça!

pensamentos
(imagem: http://palavrasemilimagens.blogspot.com.br)