Celular

Ana adora brincar de falar no celular com a sua terapeuta.

No primeiro dia em que propôs a brincadeira, ela demonstrou estar muito bem entrosada com as novas formas de comunicação.

– Então, Ana, o que você quer fazer hoje? Vamos continuar montando o quebra-cabeça?

– Não, vamos brincar de casinha? A gente é amiga e tem celular. Aí você me liga.

– Tá bom, então vou te ligar, atende aí: “Trrrriiim, trrrriiim”!

– Que é isso?

– Ué, o telefone tocando…

– Mas o telefone não toca assim.

– Ah, é mesmo, eu me esqueci… é que na época em que eu brincava de falar no telefone eles tocavam assim (risos). Agora vou fazer direito, vamos la! “Tãnãnãnãnã, tãnãnãnãnã”!

– Ah não, o meu celular não toca assim, não.

– Mas você nem tem celular. E o meu toca assim, oras… Bom, ok, me liga você, que eu atendo, então.

– Tá! Atende aí (começa a cantar, animadíssima): “I’m a barbie girl, in a barbie wooorld!”

Mais anatomia humana

Assim como a Mariana, que descobriu que o papai tem pipi e ela tem umbigo, o Joaquim, quando tinha 2 anos e meio, também fez uma descoberta fantástica:
– Eu tenho peru! – constatou animado.
– Sim, Joaquim, você tem peru. – confirmou sua mãe.
– O vovô Xalá tem peru! O vovô Zé tem peru!
– E a vovó Lygia? – perguntaram para complicar.
Após uma longa pausa para pensar, surge então a resposta:
– Ah, a vovó Lygia tem peruca!!!
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E a Iara, de 1 ano e 11 meses, também vai entrar para o grupo de estudos de anatomia humana:

– As meninas tem xoxotaaaaaa!

– E os meninos? – quis saber sua mãe.

– Xuxutuuuuu!!!

Deus digital

Artur, com 4 anos,  descobre uma nova interjeição:
 

– Meu deus!
 

– E tu por acaso sabe o que é deus? – quis saber sua mãe.

– O deus. – corrige Artur.


– Tá. O que que o deus faz?


– Ele forma pessoas.


– Ah, é? E como que ele faz isso?


– Assim (e faz uns gestos como quem está moldando massinha de modelar)… (pausa reflexiva)… Ou então, ele aperta uns botões.

Miguel, a morte e o sentido da vida

Quando a bisavó do Miguel morreu, ele tinha 3 anos e meio e quis entender melhor tudo o que estava acontecendo conversando com seus pais:

– Por que vocês enterraram a minha bisavó na areia?

– Porque ela morreu, filho.

– E por que ela morreu?

– Porque estava velhinha

– E por que ela tava velhinha?

– Porque nasceu faz tempo.

– E por que ela nasceu?

Diante dos intermináveis porquês, a mãe do Miguel resolveu devolver a pergunta:

– Por que você nasceu, Miguel?

E, animado, ele responde:

Pá bincá, pá durmi, pá acordá quando tiver de dia!

…………………..

E, já com 4 anos, ele retomou com os pais a conversa sobre a morte e o morrer…

– Todo mundo no mundo inteiro vai morrer, mãe?
– Sim, filho, quando fica velhinho, todo mundo morre.

– Todo mundo mesmo?

– Todo mundo.

– Ahhhh, mas eu sei de uma pessoa que nunca vai morrer.

Nesta hora, a mãe do Miguel pensou que ele iria dizer ele mesmo, ou ela, mas ele logo completou:

–  O Papai Noel!

Histórias de Clarice…

Transcrevo aqui dois registros encantadores retirados do caderno de Clarice Lispector…
“1954 – no aeroporto quando íamos de férias para o Rio, ele vê uma menina e me diz furtivo, afobado:
– Olha, uma menina bonita!
Ficou agitadíssimo e disse:
– Mamãe, quando eu vejo uma moça eu até sinto o cheiro do meu paninho! (o pedaço de pano com que desde que nasceu, ele dorme. Quando o pano era lavado ele reclamava a ausência de cheiro. Uma vez disse: mamãe, o paninho tem cheiro de mamãe!)”
“Pedro.
– A palavra “palavra” é ex-possível!
– Ex-possível?
– É! Gosto mais de dizes ex-possível do que impossível! A palavra “palavra” é ex-possível porque significa palavra.”
LISPECTOR, Clarice. Outros Escritos (Organização de Teresa Montero e Lícia Manzo). Rio de Janeiro: Rocco, 2005.