Histórias de Clarice…

Transcrevo aqui dois registros encantadores retirados do caderno de Clarice Lispector…
“1954 – no aeroporto quando íamos de férias para o Rio, ele vê uma menina e me diz furtivo, afobado:
– Olha, uma menina bonita!
Ficou agitadíssimo e disse:
– Mamãe, quando eu vejo uma moça eu até sinto o cheiro do meu paninho! (o pedaço de pano com que desde que nasceu, ele dorme. Quando o pano era lavado ele reclamava a ausência de cheiro. Uma vez disse: mamãe, o paninho tem cheiro de mamãe!)”
“Pedro.
– A palavra “palavra” é ex-possível!
– Ex-possível?
– É! Gosto mais de dizes ex-possível do que impossível! A palavra “palavra” é ex-possível porque significa palavra.”
LISPECTOR, Clarice. Outros Escritos (Organização de Teresa Montero e Lícia Manzo). Rio de Janeiro: Rocco, 2005.

 

Mais Lua

Theo, 3 anos e 10 meses, tagarelando sobre planetas e satélites e olhando a Lua Cheia com a mamãe:

– Olha um planeta!

– Parece planeta, né? Mas é a Lua, filho.

– Mas ela tá assim redonda, que nem um planeta, é um planeta! A Lua é assim com um risquinho (desenha uma Lua Crescente com a mãozinha).

– A Lua tem várias fases, Theo: essa do risquinho é a Lua Crescente, essa redonda é a Cheia…

– Ah, sei, e também a Lua Linguante, né?

Automático

Ian (5 anos): … daí eu sonhei que bateu o carro e daí eu acordei com medo!

Theo (8 anos): Ian, mas você disse que conseguia escolher seu sonho, lembra? Por que dessa vez você não escolheu outro sonho?

Ian: Ahhh, Theo, não é toda vez que dá pra escolher o sonho, né? Dessa vez quem escolheu foi o automático!

Brinquedos e brinquedas

A mãe de Artur, de 5 anos, conversou bastante com ele sobre questões de gênero, esclarecendo que brinquedo é brinquedo e não precisamos dividir “brinquedo de menina” e “brinquedo de menino”. 
Artur concordou com todas as colocações, mas no final da conversa, lançou:

– Tá bom, mamãe, entendi. Mas eu não quero nem passar batom e nem pintar a unha, tá?

Porque, Porque, Por quê?

Mattias, descobrindo os porquês…
– E por que, mãe?

– Por que tá inverno?

– Por que o jacalé é cainívolo?

– Por que a malé tá cheia?

– Por que a Côli tá tão goiducha?

– Por que a Matilda tem rabo?

– Por que não vai chover hoje?

-Filho, melhor deixar essa faca quieta.
-Por que, mae? Será que ela fala?

Natação lusitana

Amanda, 3 anos indo pra para natação:
– Vamos filha…. Estamos atrasadas…. Olha lá seus amigos já se aquecendo para a aula de natação!
– Mamãe tá frio lá na natação?
– Não filha, a água da piscina é quentinha.
– Então, mamãe, por que meus amigos estão se aquecendo?

Theo, 5 anos e 8 meses, querendo fazer natação:

– Mãe, quando eu vou poder nadar no clube?

– Primeiro a gente precisa pagar a associação, depois você faz o exame médico e aí pode nadar.

– Pra que exame médico?

– Pra ver se tá tudo bem, se não tem frieira… mas você não tem agora, vai poder nadar.

– Ah não, eu tenho sim! Eu tenho muito frio na piscina!! Como faz pra parar com a frieira???

natacaoimagem: pixabay.com

Melhor que manjar

Dudu, de 7 anos, foi almoçar na casa da tia e, para a surpresa de todos, comeu rapidamente, concentrado e…quieto!!! Comportamento raríssimo para um menino sempre conversador como ele é.

Intrigada, sua tia perguntou:
– Nossa Dudu, que beleza ver você comendo assim bonitinho, quietinho. Tá gostoso?

E, ainda com água na boca, ele respondeu:

– Ah, tia Mel, tá sim…

Com uma pausa, ele olhou para o alto, como que procurando uma definição melhor e completou:

– Esse almoço tá uma Jarra dos deuses!!!